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As ironias da Carolina

As ironias da Carolina

De que forma a Síndrome do Intestino Irritável afectou a minha vida?

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       São muitas as mensagens que recebo sobre de que forma a SII me afectou e como lido. Fui "desafiada" a fazer um post sobre como lidei psicológicamente com esta síndrome tão "inespecífica".

Acompanham-me?

     

    Antes de mais, preciso de dizer que todas estas palavras vêm de "dentro" e que será um texto sem tabus - sim, porque aparentemente palavras como "diarreia" ou "gases" tornaram-se tabu e "parece mal" falar destes assuntos.. Não é nojento, é comum do Ser Humano. 

     Com a mesma frequência, também recebo muitas mensagens de pessoas que "acham" que sofrem de SII porque costumam estar "muito inchadas", com cólicas, desconfortáveis ou com alguns gases... sobre isso farei ao longo do tema.      

      Há cerca de 2 anos, o meu físico sofreu uma grande mudança e perdi cerca de 10kg. Os olhares e comentários foram muitos e eu sabia perfeitamente o que pensavam - "deve ser anorética".  Na faculdade, no ginásio e até no instagram...Todas as pessoas gostam de dar a sua opinião, não é verdade? - "Estás bem? estás tão magrinha.."

      Fará cerca de 2 anos que fui diagnosticada com Síndrome do Intestino Irritável. Por volta da mesma época, foi-me também diagnosticada síndrome dos ovários poliquisticos, para além de descobrir "mais" uns belos quistos nas mamas (mama é o termo médico) causando-me grande ansiedade, uma vez que o meu historial não é o melhor e, mais recentemente, um diagnóstico de gastrite crónica. A par com todo este bom "abanão" na minha saúde, estava o stress de constantes estágios hospilares em que mudava frequentemente de rotinas, de local, de horários - o que não é nada bom para qualquer Ser Humano. Foi dos anos que mais me abalou e o meu físico/saúde sofreu.

*Um pequeno aparte, que acho que fará sentido ao longo do texto: Por volta dos 18-19 anos, iniciei um padrão de distúrbio do comportamento alimentar. Isto para dizer e (re)afirmar que acredito que quem já passou por QUALQUER TIPO de distúrbio, que nunca estará plenamente "curado" e sem "problema". Isso é só uma ideia romântica e inocente. 

 

       Já devem estar a pensar - Que complicação! Pois, a SII é mesmo uma complicação e, provavelmente, uma consequência da forma como encaramos a vida, uma vez que parece ser despoletada por eventos altamente stressantes.

Não é só o nosso bem-estar físico que é afectado.. a vertente social e relacional também sofre muito. 

De que modo?

       Não saber quando vamos ter uma crise, seja de dores ou de uma súbida vontade enorme de ir ao wc. Falo por mim! Eu, pelo menos, tenho muita dificuldade em ir a uma wc que não seja a minha.. E sim, já me aconteceu. Para além disso, na SII é normal haver uma maior produção de gases.

       Todas as pessoas sabem que não há nada pior do que "aguentar os gases cá dentro". Agora imagem isso durante o dia. Com roupa... Pior para quem passa o dia sentado, pois cria ainda mais dores e desconforto. Sejemos honestos. Todos nós já fomos na rua e "deixámos algo escapar", claro!

"Ah mas ninguém sabe que foste tu" - Na rua não..! E no trabalho? Ou num grupo de amigos... Sim, afecta a nossa vida social. Mas ninguém deixa de sair por ter "uns gases", mas entendam que não é só gases. É dor mesmo. Para além disso, muitas vezes "guardar tudo cá dentro" cria uma sensação enorme de enjoo e de má-disposição. Quem é que consegue estar com bom humor quando tem dores e cólicas? 

 

Já conseguem imaginar o impacto na vida social... 

 

      Até agora, todo este "belo" cenário está associado a crises de diarreia. Pois, mas na SII há uma alterância entre um padrão de obstipação e de diarreiras (podendo haver maior predominância de um). Agora na parte da obstipação, e falando por experiência própria. No ínicio da sintomatologia, o meu padrão era maioritariamente de obstipação.

     Era capaz de ficar uma semana sem ir ao wc... Imaginam o "empacotamento interno"? (é o termo que, para mim, define o que sentia). Chegava a uma altura que o apetite era nulo e que os enjoos eram constantes. Não melhorou quando ouvi de médicos - "ah isso são manias" - ou pior... *muito pior* - "tente comer mais fruta, legumes, sementes.." - Sim, PODE SER MUITO PIOR e quanto a isso, podem ler aqui.

      Para além do sentimento de inutilidade e de "reduzirem-me" às "manias de dietas" (por estar associada à minha visível perda de peso), é o sentimento de desespero de ouvir conselhos básicos do "gira-o-disco" a alguém que já fazia tudo isso.

E o tempo passava e eu piorava: comecei a perder mais peso porque era impossível alimentar-me em "condições", para além do stress de já não perceber o que me causava tanto mau-estar, em associação a todo o stress na minha vida.

     Sentia-me fraca, cansada, visivelmente mais magra e com isso veio toda a luta com a minha imagem corporal, que não "aguentava" ver-me mais magra e a deitar todo o esforço que tinha feito para ganhar o meu "corpo fit". Aliado a tudo isto, deixei de conseguir treinar como treinava, seja em frequência como em intensidade - e eu gosto de treinar! Mas perceber que tinha de "ouvir o corpo"... Custa!

    Como disse logo no início, quem sofreu um distúrbio estará sempre a um momento stressante e fora do seu controlo para voltar a entrar na espiral. Ora, para quem já tinha conseguido fazer as "pazes" com a sua imagem/comida e que já estava fisicamente "saudável", deixar de saber como lidar novamente com a alimentação, é...digamos... mentalmente dificil.

 

E como afecta a vida pessoal?

      Afecta e muito! Para além de ter afectado o modo como me vejo - o que por si só é o maior problema - fazia com que eu não estivesse confortável com o meu Hugo. Para além disso, e SEM TABUS, afecta a relação intíma porque estava sempre com gases ou dores de barriga. O meu conselho é partilharem com o vosso parceiro o que sentem... Quem realmente vos ama, irá ter que lidar com cheirinhos *ehehehe*

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    O intestino é um órgão bastante irrigado e com muitos receptores, daí que funciona quase como um segundo cérebro, sentindo muitas das nossas emoções. Umas das causas mais frequentes para despoletar crises está relacionada com o stress e ansiedade. De facto, não há uma "cura" específica até porque ainda é uma síndrome pouco estudada e entendida.

    Um dos "tratamentos" principais está relacionado com a gestão do stress e tentármos "não stressar" em "não stressar" ou com tudo o que não podemos controlar. Em termos alimentares, é MUITO individual e temos de aprender a jogar com isto. Existem alimentos que sei que não consigo tolerar, outros que são "seguros" mas a maioria é um tiro no escuro, estando no que chamo de "zona cinzenta" - uns dias caiem bem..outros nem por isso. Cada dia é um dia.

     Já relativamente a medicação, há quem necessite de tomar medicação ansiolítica. Felizmente, nunca precisei e apenas tomo medicação para gestão da sintomatologia/crises. A única medicação regular que faço é para as crises dolorosas e um protector gástrico, uma vez que ultimamente tenho tido bastante azia. 

   Felizmente, tenho conseguido manter um padrão intestinal bastante regularizado e sem diarreias frequentes e que me deixam sem forças.

Como consegui? Deixei-me de seguir modas. Sim, MODAS!

    Cada vez mais, parece que uma alimentação saudável é com muitos legumes, alimentos ricos em fibra, deixando de parte o mais básico como pão "de verdade", arroz/massa/batata normal... Não é necessário nenhuma restrição! Basta não nos comparármos com outras pessoas, em especial porque nas redes sociais, tudo "vive" de ângulos, poses e luz... Ah, ede  patrocínios.

     E é aqui que gostava de dizer algo que também é verdade: A maioria das pessoas que fala comigo porque "acha que tem SII" são, na sua maioria, pessoas que seguem as ditas modas e a sua alimentação é excessivamente rica em legumes (especialmente porque é low carb...) OU outros alimentos da "moda" que poderão ser exactamente algo que o seu organismo não tolere.  Claro que sem "culpa" porque é o que somos bombardeadas constamente e eu percebo o quão confuso é.

 

Um exemplo: eu não tolero aveia e é dos cereais mais utilizados. Faz de mim menos saudável por não utilizar aveia? Não. 

 

   Portanto, a maioria dos sintomas que acontecem na SII (cólicas, gases, distenção abdominal) são simplesmente NORMAIS e comuns a todas as pessoas, mas que podem ser exacerbados pelo erro alimentar mais comum: O desejo de querer ser "saudável". 

  Ter SII não é "fixe" nem é uma desculpa "medicamente aceite" para deixarem andar os vossos medos e distúrbios alimentares.

 

CONCLUSÃO: A saúde é DIFERENTE para todos, em especial relativamente à alimentação. Ser saudável NÃO É ELIMINAR nada, a não ser o que te faça mal. Óbvio que se eliminarem a lactose e o glúten (mesmo sem intolerâncias), o mais provável é retirarem um (e basta um!) alimento que consideravam saudável/benéfico mas que seja a causa de todos os sintomas desconfortáveis. E mais uma vez - releiam este artigo relativamente a obstipação e se será fibra a mais o teu problema? Pode ajduar muito...!

     Agradeço a todos os que leram e lamento se esperavam alguma dica mágica - não há... 

 

OBRIGADA POR TODO O APOIO!

 

     Deixo aqui algumas dicas e estratégias que me ajudam no dia-a-dia! Apesar de serem simples e (algumas) evidentes, é sempre bom relembrar, pois temos a tendência em esquecermo-nos do básico:

 

✔️A seguir às refeições, mascar pastilha de mentol para ajudar a aumentar a motilidade gástrica. 

✔️Nos dias em que sabes que vais estar mais parada/sentada, evita roupa (calças) justas. Parece básico mas quase todas falhamos nisto, uma vez que o marketing promove a ideia que roupa justa é que nos faz parecer sexy. Nos dias em que sei que vou passar horas sentada, utilizo calças elásticas, COM BOTÃO e camisolas compridas, porque acabo por desapertar o botão (sim, não quero saber, apenas quero evitar que me digam “olha tens o botão aberto!” - Eu sei que sim)

✔️Após episódios de diarreias que te deixam fraca devido à perda de líquidos, aposta num refrigerante para ajudar na reposição de electrólitos, sem esquecer manteres uma hidratação e alimentação pouco agressiva, para repor tudo o que “foi perdido”

✔️Evitar demasiados legumes/alimentos com muita fibra, especialmente em fases de obstipação.

✔️Evitar beber demasiada água, especialmente quando estás muito obstipada (não ajuda, só “incha”) - Um aporte de 2L/dia de água é mais que suficiente!

✔️Evitar pensar demasiado quando estás obstipada. Acaba por criar mais ansiedade e o intestino parece uma impressora – quando te enervas, deixa de funcionar.

✔️Evitar o uso recorrente a laxantes pois pode induzir intestino preguiçoso

✔️Em dias que te sintas enjoada, evita comidas muito pesadas mas não evites comer! Come alimentos simples e básicos

✔️Em dias de enjoos, evita comida/líquidos muito quentes porque ainda aumentam mais a sensação de saciedade e, como dito acima, é importante comeres... adequadamente!

✔️Em casos em que tenhas cólicas/contracções abdominais, utiliza um saco quente na arriga para ajudar a relaxar. Contudo, a medicação existe para ajudar!

✔️Relativamente ao treino, apesar de CUSTAR, ouve o teu corpo e evita a mentalidade de “no pain, no gain” ou que “sem esforço não há recompensa”. Não é por menos um treino (ou uma semana) que terá impacto negativo num ESTILO DE VIDA que promove o exercício como forma de nos mantermos fortes, ágeis e funcionais e não com um “body beach”.

✔️Evita exercícios que requeiram esforço abdominal

✔️Evitar olhar para o espelho nas horas nocturas, uma vez que (inevitavelmente) estamos mais inchadas, causando-nos mais stress

✔️Evitar situações/eventos que te causam stress

✔️Evitar formular na tua cabeça "cenários" possíveis do que pode acontecer, seja com o que for,


⚠️Informação adicional: Para a comum pessoa, MESMO SENDO JOVEM, sem aparente “patologia” e que realmente tem muita obstipação, pode ser mesmo obstipação crónica. É uma patologia real e por vezes não há muito a fazer nesse sentido, apenas aprender a gerir o melhor possível.

 

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