Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

As ironias da Carolina

As ironias da Carolina

Serão as carnes vermelhas um alerta VERMELHO na nossa alimentação?


Resultado de imagem para carne vermelha

   Todos os dias assistimos a um marketing poderoso e escandaloso relativamente a produtos, alimentos ou dietas que prometem curar o cancro.  

   Leite, soja, salmão.. afinal, parece que tudo pode causar cancro! A carne vermelha não foge à regra.. Não é verdade?

 

 É certo e sabido que a saúde e um envelhecimento saudável estão intimamente ligados com estilos de vida.

 Estilos de vida saudáveis são nada-mais-nada-menos que hábitos CONSISTENTES. A consistência é algo que o Ser humano parece esquecer-se frequentemente. Hábitos saudáveis não são um mês de treino certinho e de alimentação "limpinha", retirar a lactose ou glúten ou fazer uma alimentação vegana. 

  Hábitos saudáveis envolvem muitas DIMENSÕES tais como sentirmo-nos realizados na nossa vida profissional, termos alguém que nos ame pelo que somos, evitar o sedentarismo, tabagismo, hábitos etanólicos e, a nível alimentar, aquilo que todos sabemos - preferir alimentos nutritivamente ricos e o menos processado possível, SEM ESQUECER que deve haver MODERAÇÃO e que podemos consumir alimentos menos nutritivos, porque faz bem à nossa alma - outra dimensão fundamental para o nosso bem-estar.

   Relativamente a carnes (ou alimentos) processados, estas dizem respeito a carnes que sejam preservadas por fumagem, cura ou salga, ou adição de conservantes químicos.

   Há algo que DEVE ser distinguido - a carne vermelha da carne vermelha processada.

 

Porque diferem, Carol?

 

  O consumo de carnes vermelhas traz benefícios nutricionais, quando realizado em quantidades adequadas e incluídas numa alimentação variada. São fontes de proteína de elevado valor biológico e são boas fontes de ferro. Contudo, apresentam maior teor de gordura (em especial, saturada), pelo que o seu valor calórico é superior em comparação com carnes magras.

  Ainda assim, não é por serem mais calóricos que é mau. Um bife de carne vermelha grelhada consumido numa alimentação variada é benéfico, tal como o consumo de qualquer alimento...!

  Ora, uma das causas potencialmente convincentes associadas ao desenvolvimento de cancro está relacionada com o excesso de peso e com o elevado percentual de massa gorda. Não podemos ser inocentes para apenas o que nos dá jeito.

  A obesidade não está associada a comer um pouco de açúcar ou umas carnes processadas "de vez em quando", mas sim a hábitos pouco saudáveis. Para além disso, e muito importante, é que o consumo frequente de carnes vermelhas processadas está relacionado com estilos alimentares menos adequados, menos variados, com maior excesso calórico total e com o maior sedentarismo. Tudo isto, causa um ambiente obesogénico que poderá potenciar a oncogénese e, quem sabe, a expressão de genes relacionados com o mesmo.

  O problema não é a carne vermelha em si, mas a forma como a utilizamos. 

 

Imagem relacionada 

 

Relativamente à oncogénese

   É muito importante salientar que ASSOCIAÇÃO NÃO SIGNIFICA CAUSA.

  A associação positiva do cancro com o consumo de carne processada pode estar relacionada com a sua composição em ferro heme, o teor de gordura saturada, nos compostos nitrosos naturalmente presentes na carne ou adicionados como resultado do processamento e formação da forma final em que o alimento chega até ao consumidor. Relativamente ao processo de defumação (o processo responsável pela atribuição do sabor fumado a carne, chouriços e a pescado), resultam compostos de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e de aminas heterocíclicas que podem contaminar os alimentos. Estes compostos estão também associados com potenciais alterações do DNA e com a mutagénese.

 

"Entretanto, doenças crônicas não sofrem influência somente da ingestão alimentar proveniente do consumo de carnes vermelhas e processadas, mas do hábito alimentar, ou seja, da quantidade e qualidade geral da alimentação do indivíduo."

 CFC FREITAS et al, 2015

 

  Para o cancro colorectal e do reto, os resultados não são significativos. Já para o cancro do cólon, a evidência é significativa mas com baixa heteregeneidade. Parece haver consistência na associação positiva de que o consumo de carne vermelha (>100g/dia) pode ser uma causa provável de cancro colorectal, do reto ou do cólon, contudo, os resultados são pouco evidentes, claros ou significativos.

   As associações para o desenvolvimento de cancro do cólon e do reto parece ter maior força no sexo masculino em relação ao sexo feminino (apesar da evidência ser limitada e ainda inconsistente), provavelmente devido a variações hormonais.

  De acordo com Aune D et al. (2011), a carne vermelha processada não é um factor de risco INDEPENDENTE para o cancro colorectal, estando associado à conjugação com outros factores dietéticos e de estilos de vida.

 

"In conclusion, based on the quantitative findings and scientific rationale for interpretation documented in the current meta-analysis, red meat intake does not appear to be an independent predictor of CRC risk."

Alexander et al, 2015

 

  É também importante salientar o facto de ser muito difícil isolar factores nutricionais para perceber a sua causa-efeito, neste caso relativamente ao consumo de carnes vermelhas e o desenvolvimento de cancro. É quase tão difícil como perceber o porquê de uma mulher ficar chateada de um momento para o outro, quando as possibilidades de causa-efeito são milhentas.

 

Este excerto é muito MUITO importante:

 

"Indeed, high intake of red meat has been correlated positively with factors that have been associated with increasing the risk of CRC, such as a high BMI, smoking, and alcohol intake, and red meat intake has been correlated inversely with factors suggested as possibly decreasing the risk of CRC, such as physical activity, fruit and vegetable intake, and socioeconomic statusThus, it is difficult to analytically isolate the separate effects of red meat from other dietary, lifestyle, socioeconomic, and clinical factors."

Alexander et al, 2015

BMI - Body Mass Index (o nosso IMC)

CRC - Cancro colorectal

 

 

Captura de ecrã 2018-03-20, às 14.35.42.png

WCRF/AICR. Continuous Update Project Report: Diet, Nutrition, Physical Activity and Colorectal Cancer. 2017. 

 

"(...) all summary associations between red meat consumption and CRC were weak in magnitude, no coherent pattern of dose-response was apparent, and associations were largely inconsistent across the individual studies and the analytical subgroups. Such patterns of association are not supportive of a relationship that is causal. Furthermore, associations from human health studies of the postulated biological mechanisms have been weak and inconsistent as well."

Alexander et al, 2015

 

Terminando, com algumas aplicações práticas: 

   As recomendações gerais são isso mesmo - para a generalidade da população que, certamente, não é representada pelo população do fitness ou do instagram. A generalidade da população tem excesso de peso, ou não fosse a obesidade uma epidemia e a diabetes mellitus uma doença crónica com uma enorme prevalência.

  A maioria da população não faz apenas uma "cheat meal", não come um hambúrguer de vez em quando ou faz uns ovos mexidos simplesmente para desenrascar. A maioria da população consome frequentemente fast food (comida processada que vai muito para além das carnes vermelhas), tem consumos calóricos excessivos (vindo ou não da comida processada), consome bastantes refrigerantes açucarados, mexe-se pouco e, na generalidade, tem hábitos de vida pouco sorridentes.

  Assim sendo, "redução do consumo" não deve ser encarada como um extremismo mas sim como uma recomendação conservadora e com todo o sentido.

  Há tanto alarmismo face à alimentação - que pode potenciar ou estar associada ao aparecimento de cancro, numa perspectiva de co-relação com os hábitos de vida - mas esquecemo-nos frequentemente de outros hábitos que estão sobejamente ligados ao cancro, como fumar.. E aí existe uma atitude mais relaxada de que é "só um de vez em quando". 

   O processo de oncogénese é muito complexo e é incorrecto  dizer-se que está intimamente ligado a X alimentos! 

  Aposto que já estão fartos de me ouvir dizer isto mas guess what..! Façam uma alimentação variada, moderada e não se foquem em pormenores. Se o problema fosse somente da carne vermelha (processada ou não), bastava retirar-se e eramos todos felizes.

  Como é óbvio, não estou a promover o consumo de qualquer tipo de alimentos processados pois sou  ACREDITO numa alimentação o mais consciente e nutritiva possível mas deixemo-nos de fundamentalismos.

  Não se sentiam mal por comerem de vez em quando uns chouriços, uma refeição de fast food, uma tosta com fiambre, ovos mexidos com salsichas ou bacon.

 

PS: Para quem é "contra" processamento alimentar, o tofu também é processado, bem como a whey.. Com isso está tudo bem....?

 

Saúde é mais que um alimento. Cancro é muito mais que um alimento.

 

POR UMA ALIMENTAÇÃO COM SENTIDO!

 

Bibliografia

Alexander DD, Weed DL, Miller PE, Mohamed MA. (2015) Red Meat and Colorectal Cancer: A Quantitative Update on the State of the Epidemiologic Science. Journal of the American College f Nutrition, Vol 34, No. &, 521-543

Aune D et al. Dietary fibre, whole grains, and risk of colorectal cancer: systematic review and dose-response meta-analysis of prospective studies. BMJ 2011;343:d6617 

Cross AJ, Leitzmann MF, Gail MH, Hollenbeck AR, Schatzkin A, Sinha R. A prospective study of red and processed meat intake in relation to cancer risk. PLoS Med. 2007; 4(12):e325

World Cancer Research Fund and American Institute for Cancer Research. Food, nutrition, physical activity and the prevention of cancer: A global perspective. 

World Cancer Research Fund and American Institute for Cancer Research. Food, nutrition, physical activity and the prevention of cancer: A global perspective. London: WCRF; 2007 [2014 jul 5].

FREITAS CFC et al (2015). Diet quality of consumers and non-consumers of red and processed meats: ISA-Capital Study. Rev. Nutr., Campinas, 28 (6):681-689, Nov/dez 2015

Chao C, Yin Z, Zhao Q. (2017). Red and processed meat consumption and gastric cancer risk: a systematic review and meta-analysis. Oncotarget, Advance Publication, Acesso disponível em www.impactjournals.com/oncotarget/