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As ironias da Carolina

As ironias da Carolina

Uma história verídica

 

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            A história que vos vou apresentar é bem real.. Ouvi com os meus próprios ouvidos que a "terra há-de comer".

       Era um domingo solarengo. Frio mas muito agradável e a convidar dar um passeio pela tarde... As tardes agradáveis proporcionam paragens estratégicas por cafés e pastelarias apetitosas e acolhedoras. Eu e o meu Hugo decidimos aproveitar a tal tarde com uma paragem estratégica para lanchar. 

         É certo que as pastelarias estão cheias de bolos, doces, miniaturas ou mil-e-uma coisas apetitosas. Também é certo que não é necessário comer alguma destas opções só porque vais a uma pastelaria. Nem sempre, nem nunca. Nem 0, nem 80

       Durante o nosso lanche entrou uma rapariga com os seus 30 e poucos anos, acompanhada dos seus avós. Sentaram-se na mesa ao nosso lado portanto, mesmo que não faça por isso, é impossível não se apanhar bocadinhos da conversa. O que me chamou à atenção inicialmente foi que assim que se sentou, tirou da sua mala uma gelatina light. "Ok...uma gelatina... Vamos lá ver o seguimento" - pensei eu.. não julguei, apenas fiquei alerta porque... bem, "olho clínico" para a coisa, sabem?. 

        Pediram chá para os três mas os avós claramente que queriam aproveitar o momento e pediram, cada um, um bolinho miniatura. Durante todo o lanche - é impossível não ter ficado com a audição mais apurada... - a rapariga falou sobre o que era saudável, sobre o glúten, o açúcar que vem daqui ou de acolá e até das várias opçoes sobre como a Avó podia fazer panados. 

      O rapaz que os veio servir perguntou em tom nada acusatório ou provocador se a senhora não queria nada - "não vai nada? nem um pastelinho?" - e a resposta foi um sorriso tímido a dizer "está aqui o meu pastel de nata!" - o meu "olho clínico" SÓ viu tristeza naquela cara - Já a Avó, farta da conversa, responde "veja lá que até teve que ir comprar uma gelatina". 

        Termina aqui a história. Tive que me desfocar... Estava a ficar demasiado triste por ver a triste situação. No entanto, não consegui não pensar e refletir:

 

  • Sejam quais forem as vossas convicções sobre o que for, NÃO tentem impingir aos outros. Falar, debater e discutir ideais é óptimo mas todos temos bom senso para saber quando é demais.. Ou não? O que tu consideras saudável, não tens que tentar que os outros o façam! Não estejas constantemente a mandar bitaites sobre o que achas ou como tu fazes, porque leste aqui ou aquela faz assim... Sê lá tu "saudável"  à TUA maneira. Não queiras mudar os outros ou o Mundo com as tuas crenças. Muito menos estragar convívios e tardes de domingo.
  • Qualquer pessoa, mesmo que esteja a seguir algum tipo de plano alimentar ou tenha algum objectivo, TEM que ter noção que a flexibilidade está na SUA MENTE e não porque acha que controla um "plano" quando é ele que nos controla.
  • Qualquer pessoa que não consiga ser flexível o suficiente para ir a uma pastelaria e fazer com que alguma das mil-e-uma opções seja adaptável ao seu objectivo... Perdoem a franqueza mas logo aí demonstra a FALTA DE FLEXIBILIDADE e variabilidade alimentar (e mental!!). Impossível dizerem que há alguma pastelaria que não tenha um pão-da-moda que seja integral ou de cereais.. E fiambre! Caramba!! E mesmo que vocês queiram fazer uma dieta maioritariamente sem glúten (porque lá acreditam nessas histórias, mesmo nao tendo intolerância ou sensibilidade grave), são assim tão inflexíveis para um lanche/refeição?

 

      Esta história é a história de muitas. Talvez muitas não tenham chegado ao ponto de levar a gelatina para a pastelaria (tupperwares para almoços/jantares de amigos ou família também é semelhante...) mas certamente que o quiseram fazer! Não fizeram porquê? Porque sabem que isso é gritar aos Quatro-Ventos o quão... problemáticas estamos, mesmo que não queiramos "admitir em voz alta" 

      A conclusão muito dura a que eu cheguei é que... É uma doença séria - muito séria.. Acontece a qualquer um e em qualquer idade mas sabem do que deriva? Qualquer distúrbio ou problema de controlo/descontolo começa com insegurança, falta de amor próprio e falta de nos sentirmos amados. Pensa bem se não é! E começa desde novas, a adolescência.. Simplesmente o desenvolvimento de alguma distúrbio/adição é uma forma de self-harm&hate, inconsciente ou não! Só que...é triste... Nesta história, a "rapariga" tem os seus 30-e-tais, o que significa ainda não percebeu que o problema está em si. Mais duro de se dizer... É sermos um bocado "ocos" quando permitimos que este distúrbio seja tão "abafado" como sendo um "padrão saudável". É sermos "ocos" quando deixamos um distúrbio controlar-nos, mesmo dizendo "eu sei mas...". É sermos um bocado "ocos" por não percebermos que VALEMOS MUITO MAIS que a porra de um corpo. 

      Fartamo-nos de dizer que é para sentirmo-nos bem connosco.. Mas, na verdade, vocês queremos é agradar aos outros, queremos ser como a Outra. Talvez porque a "Outra" parece ser tão amada, acarinhada e cheia de likes Ah tão gira que é! Se ao menos eu fosse um pouco assim... -   Querer ser como a "Outra" - especialmente no físico - epa... É simplesmente um objectivo ridículo. É passaremos a vida de forma oca. 

       Distúrbios alimentares tem tudo que ver com o que consideramos que somos merecedoras. Ora, se deixamos que seja a nossa Imagem a reinar, não é nada mais que sermos ocos (e futéis). Ainda assim, até quando atingirmos minimamente os nossos objectivos, o que acontece sempre? "Ainda não está como quero" - Não, nunca vai chegar. E não chega... porque depois nós somos o nosso Corpo e, por isso mesmo, não podes desprender-te disso.

      Por mais que gostemos da nossa Imagem mais Assim-ou-mais-Assado (que é importante, não sejemos "cínicos"..), se soubermos o que VALEMOS ENQUANTO PESSOAS - então caramba, sabemos que há coisas melhoras na vida! Ainda falta muita honestidade connosco!

       Repito duramente mais uma vez: O nosso problema não é o que vemos ao Espelho. É o que pensamos sobre NÓS. Repito também que é uma doença séria e grave e sim.. muito "abafada".  

      Reforço: Não pretendo julgar porque já passei por isso. Agarrem "tomates" para admitirem e não esperem "palmadinhas" nas costas porque é o que maioritariamente se lê e olhem.... não resulta!

 

Um beijo cheio de carinho,

Carol

 

 

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